Acostumado com os palcos desde os 11 anos, o ator Bruno Garcia, 38, começou a trabalhar em Recife, sua cidade natal, dirigido por seu pai, Seu João, formado em balé clássico. Foi para o Rio em busca de reciclagem profissional em uma época, inÃcio dos anos 1990, em que o crescimento cultural do terceiro polo cultural brasileiro (só atrás de SP e Rio) deu uma estagnada, sem rodar filmes.
Com um videobook embaixo do braço, seu portfólio vanguarda com telejornais e comerciais já feitos, e indicação de uma amiga (Yolanda Rodrigues), Bruno nem precisou fazer teste na Globo. Daniel Filho gostou da originalidade e do que viu na tal fita e o chamou para seu primeiro trabalho na emissora: o programa Caso Especial (1991), com Adriana Esteves e Miguel Falabella, exibido às terças. Como diz o próprio ator, começou com o filé mignon e depois foi fazendo pequenas participações aqui e ali até conquistar seu primeiro protagonista e o reconhecimento do público, em Coração de Estudante (2002).
Alto astral, bonito e cativante, Bruno recebeu a reportagem antes da apresentação da peça em São Paulo e revelou ao site Contigo! seus projetos, curiosidades ao longo da carreira e o que pensa sobre as OlimpÃadas no Rio, em 2016.
A peça A Comédia dos Erros estreou em junho no Teatro Imprensa e agora fica em cartaz no Teatro da Anhembi Morumbi até 1º de novembro. Para você, qual a melhor fase de um espetáculo: a da estreia ou quando o texto já está na ponta da lÃngua, que dá para brincar mais?
Gosto de todos os processos envolvidos, desde a leitura. Só não gosto da última noite, que é muito triste. Como tiveram duas substituições no elenco de um teatro para outro, a gente teve de ensaiar novamente, e pessoas novas trazem outros ingredientes ao espetáculo, é enriquecedor. Só não podemos reinventar Shakespeare, mas refinar a cada dia é importante. Acertar o timming da comédia é uma verdadeira equação. Sabia que a segunda entrada do fantasma em Hamlet foi acrescentada depois por Shakespeare? Ele fez isso porque muita gente chegava atrasada ao teatro e perdia a grande cena da peça. Era uma segunda chance para assistir (risos).
Você tem muita facilidade para a comédia. Esse seu jeito divertido acaba incentivando as pessoas a chamá-lo para os papéis cômicos?
Bom, o Brasil já é um paÃs inclinado a produções cômicas. E minha veia cômica é mais explorada também. Mas é difÃcil o fazer rir; como eu disse, é uma equação, porém, não é exata. Normalmente eu faço papéis hÃbridos, em que o personagem tem seu lado cômico e, ao mesmo tempo, é o galã. Ele não pode ser bobo, só um palhaço, tem sua parte romântica. Mas quando faço muitas comédias, peço por papéis mais dramáticos. Fiz Queridos Amigos (2008) recentemente em um núcleo que não tinha nada de cômico.
Conte um pouco como começou sua carreira de ator. Sei que foi ainda criança. Seus pais são do meio artÃstico? E como chegou ao Rio de Janeiro e à Rede Globo?
Meu pai é formado em balé clássico; minha mãe, professora. Comecei a atuar com 11 anos, em Recife - onde nasci -, dirigido por meu pai. Não parei mais. Fiz teatro, comerciais, um telejornal do governo por um ano. Lá, minha cara já era conhecida. Mas em 1990, uma crise chegou à cidade, terceiro polo cultural brasileiro, e as produções ficaram estagnadas. Achei que fosse a hora de me reciclar profissionalmente. Fui para o Rio com um videobook embaixo do braço. Na época, uma coisa bem sui generis. Com a ajuda de uma amiga, a Yolanda Rodrigues (produtora de elenco da Globo), tive as portas da emissora abertas e mostrei meu portfólio. O Daniel Filho viu, gostou, e nem precisei fazer teste. Fui chamado para o programa Caso Especial, exibido às terças, com Adriana Esteves e Miguel Falabella.
Daà foi para as novelas...
Diferente da maioria dos atores, comecei na Globo com o filé mignon e depois fui fazendo participações aqui e ali, como Você Decide, Retrato Falado (com a querida Denise Fraga) e papéis em novelas. A primeira foi Felicidade (1991), de Manoel Carlos, já com sua Helena - vivida por Maitê Proença. Mas o curioso foi que as pessoas não associavam os diferentes trabalhos que eu fazia ao meu nome. Não associavam um com o outro. Soube que o mesmo Daniel Filho, que me chamou logo de cara, dias depois viu outro trabalho meu e disse: ''Nossa, que cara bom. Tem aparecido atores bons ultimamente, igual o da semana passada'' (risos). Saber disso foi legal por eu ser reconhecido por ter várias facetas, vários jeitos de atuar. Por outro lado, eu precisava fazer alguma coisa para que as pessoas associassem meu perfil e trabalho ao meu nome.
E quando percebeu existir essa associação e o reconhecimento do público?
Foi só com Coração de Estudante (2002), quando fui o protagonista. Nessa época percebi que as pessoas já sabiam que aquele ator ali era o Bruno Garcia e conseguiam me associar com outros trabalhos feitos, como em O Auto da Compadecida (2000), nos cinemas.
O que faz além de atuar?
Adoro criar. Desenho, escrevo, faço stopmotion (arte com massinhas). No filme Saneamento Básico, o Filme (2006), fiz uma espécie de trailer do trailer existente no filme, o qual batizei de O Monstro da Fossa - no filme é O Monstro do Fosso. Dá para ver nos extras do DVD (e no site oficial do filme: http://www.saneamentobasicoofilme.com.br/extras_animacao.html).Â
Sério? Como foi isso, improviso?
Não, nada de improviso. Eu sabia que ficaria em Bento Gonçalves (RS) por vários dias gravando e que não teria muito o que fazer nas horas vagas. Levei vários materiais, comprei outros lá e transformei o quarto do hotel em um verdadeiro estúdio, retirando o estrado da cama - só ficou o colchão. Chamei o Jorge Furtado para ver e ele adorou. Disse para eu colocar isso, de alguma forma, no filme. Então, escrevi o roteiro e saiu a animação.
Além da peça em São Paulo, algum outro projeto para este ano ainda ou inÃcio de 2010? O que já pode adiantar de seu futuro próximo?
Bom, estreio Cinquentinha na Globo; a peça aqui em São Paulo vai até 1o de novembro. GostarÃamos muito de levá-la para o Rio também e talvez sair em turnê, mais isso é mais difÃcil pelo tamanho do espetáculo. Para o ano que vem, posso adiantar que estão previstos dois longas. E gostaria muito de colocar em cartaz uma peça que escrevi há algumas décadas para crianças de todas as idades.
Antes de sua filha, então? (ela está com 10 anos)
Sim, antes mesmo de eu conhecer a mãe dela.
Ela acompanha seus trabalhos, acha que vai seguir carreira?
Acompanha, já esteve em São Paulo vendo A Comédia dos Erros, conhece a minha peça infantil. Vamos ver. Só não gostaria que começasse tão nova como eu. É muito cansativo o trabalho.
Você é mais caseiro ou gosta de sair de casa? O que faz nas horas vagas?
Eu gosto de programar o tempo livre para ficar com minha filha. Adoro acompanhar a rotina dela, levá-la para a escola. Vamos ao cinema, gosto de filmes para crianças. Para sair, prefiro às idas ao bar e as conversas com os amigos, principalmente aqueles que não são artistas, para falar de outras coisas, não só de trabalho.
O que achou da vitória do Rio para sediar as OlimpÃadas de 2016?
Uma importante vitória de marketing. Espero que dê tudo certo e, mais do que isso, que o Brasil, assim como os outros paÃses candidatos, obtenha um programa de incentivo aos esportes - o que, infelizmente, não existe por aqui.
A Comédia dos Erros
De William Shakespeare, tradução e adaptação de Marcos Daud
Sexta (21h30), sábado (21h), domingo (19h)
Teatro Anhembi Morumbi (Mooca)
Tel.: (11) 2081-5924
Ingressos: de R$ 40 a R$ 50
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