De malas prontas para uma viagem de dois meses aos EUA, um telefonema do diretor Fernando Meirelles mudou os planos do ator Felipe Camargo.
- Felipe? É o Fernando Meirelles.
- O diretor?
- É, eu estou produzindo uma minissérie e pensei no seu nome...
- Claro! O que é?
- Protagonista!
- O quê!?
O diálogo acima não reproduz exatamente a primeira ligação de Fernando Meirelles para Felipe, mas, segundo o ator, foi mais ou menos assim que aconteceu. ''Lembro que eu falei ‘cara, sou teu fã’, me rasguei em elogios, mas ainda achava que poderia ser um trote e que seria sacaneado depois. Eu trabalharia com ele de olhos fechados e além de tudo era o protagonista.''
Criando o Dante
''Eu tenho tudo que todo mundo tem. Gosto de pensar que as pessoas são todas iguais, só que em doses diferentes. Quando eu faço um trabalho, procuro pensar no que ele tem e qual a dosagem dele para o que aparece nos textos, nas sublinhas, nas intenções do personagem. No caso do Dante, eu acho que ele reage ironicamente porque todo mundo pensa que ele é louco.''
O retorno
Se voltássemos 15 anos no tempo, Felipe, o então mais bem-sucedido jovem ator da Rede Globo, não ficaria surpreso com o convite. Acostumado a papéis de excelente visibilidade (Anos dourados, Mandala, entre outros), ele passou um tempo atuando em pontas e papéis secundários, com exceção do longa Jogo Subterrâneo (2005) e Filhos do Carnaval (2006), série para a HBO produzida pela O2, de Meirelles. ''Vivi uma época complicada de trabalho, tinha feito a novela Paixões Proibidas (Band) e comecei a recusar alguns convites. Estavam querendo me estereotipar com personagens de cafajeste ou doidão. Precisava de um rompimento com esse tipo de trabalho. Se eu ficasse aceitando, só iam me oferecer isso, então eu preferi tirar o time de campo e esperar alguma coisa melhor, só não esperava que seria tanto (risos).''
Há 14 anos levando um estilo de vida saudável, Felipe lida muito bem com a nova fase. ''A gente não nasce bebendo né'', disse. ''Assim que eu entrei em recuperação, fiz a peça Anônimo, com o Pedro Paulo Rangel. O personagem era muito denso, um cara horroroso que tinha esse lance com cocaÃna. Nos ensaios eu me perguntei ‘por que eu tô fazendo isso?Â’, foi ali que eu entendi que estava exorcizando algumas coisas. Entrei numa fase de autoconhecimento muito grande, quis melhorar, me desenvolver e principalmente me entender.''
Felipe por Fernando
''O Felipe é um dos atores brasileiros mais talentosos e, por algum mistério, desses inexplicáveis, foi mal aproveitado nos últimos tempos. Nesta série, como se verá, ele mostra como construir um personagem que, apesar de atrapalhado, é adorável e nos faz rir e chorar numa mesma linha. Colocá-lo como protagonista foi a decisão mais acertada desta minissérie. O público vai amá-lo, estou certo disso'', disse Fernando Meirelles sobre sua escolha.
Pai semidemocrático
Na vida pessoal, o ator vive sua melhor fase. Bem-resolvido com a atriz Vera Fisher, ele tem a responsabilidade pela guarda do filho do casal, Gabriel, hoje com 16 anos. ''A responsabilidade é minha, e pra mim isso é muito bom. Não vou dizer que é fácil educar sozinho, é legal dividir, o ideal é isso. O Gabriel adora a Vera e ela adora o filho. Ela é uma mãe muito carinhosa, é mãe dele e ele a ama. É superbacana e eu respeito isso pra caramba. Nunca falei uma linha mal dela. Acho a Vera um barato de pessoa e ela tá muito bem. Faz três anos que resolvemos nossos problemas judiciais. Era um saco ter que seguir recomendações da justiça, não podia quebrar o dia de visitação. Agora, eles se veem quando quer, normal.''
Em uma casa só de homens, além dos cuidados da empregada Josefina, tudo se resolve com diálogos entre pai e filho. ''Cuido dele desde os 4 anos de idade. Somos bem próximos. Costumo dizer que nossa relação é quase democrática. Ele é muito melhor que eu, acho mesmo. E tem um fato entre nós que considero muito importante. Um dia estávamos no carro e ele colocou um CD de rock daqueles bem pesados. Ouvi aquilo e quase falei ‘pô, diminui essa barulheira’. Na hora me lembrei do meu pai falando o mesmo pra mim e soltei ‘pô, maneiro esse som, o que é?’; ele me olhou com aquela cara de espanto e começou a explicar a banda. Foi ali que a gente começou a trocar. É claro que eu parei pra ouvir antes de falar. Vi que ali havia musicalidade. Hoje, ele está bem mais eclético. Eu que mostrei O Rappa pra ele. O Gabriel toca bateria, baixo, é um jovem que está vivendo a adolescência dele, e eu acho isso o maior barato.''
Namorada firmeza!
Namorando há 3 anos e meio com a fisioterapeuta e professora de pilates Malu Guimarães, o ator fala como um instrutor de educação fÃsica sobre os benefÃcios da boa circulação sanguÃnea e revela que aproveita as manhãs para correr na areia fofa da praia da Barra da Tijuca durante duas horas. Claro, superbem orientado pela namorada. ''Fiz um check-up agora, tô tinindo. O primeiro da minha vida. A Malu que disse pra eu fazer. Nunca tinha me tocado disso. Ela fez a maior campanha com os meus amigos. Depois de falarem tanto, eu fui.''
Quando o assunto é um segundo filho, Felipe tenta ser discreto e brinca: ''ela não está grávida''. Sem fugir da responsabilidade, encerra o assunto dizendo: ''A Malu não tem filhos ainda. A minha prioridade é ser feliz e o filho é uma consequência disso. Então, vamos ver. O que tiver que acontecer está na mão de Deus.''
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