Mallu Magalhães

''Felicidade o tempo todo cansa''

Em entrevista exclusiva, a cantora de 16 anos fala que é feliz, mas sabe curtir a tristeza também: ''Chorar é bom, principalmente quando tem colo perto''

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Moleca, Mallu Magalhães chega ao estúdio de fotografia grudada em um PSP (PlayStation Portable) e brincando com todo mundo. Descontração total. A alegada timidez parece ter ido embora definitivamente. Virginiana, 16 anos - ela completa 17 em 29 de agosto -, é a primeira brasileira ''cyber''. Seu sucesso nasceu na internet, no site MySpace, há pouco mais de um ano. De lá para cá, gravou CD e DVD, conquistou fãs até em Portugal, teve uma de suas canções - a J1 - adotada por uma operadora de telefonia em rede nacional e começou a namorar Marcelo Camelo, 31, ex-vocalista dos Los Hermanos. E já está compondo para um próximo CD, que deverá ser lançado entre o fim deste ano e o início de 2010.

Muito para uma adolescente de 16 anos? Não no caso de Maria Luisa de Arruda Botelho Pereira de Magalhães, sobrenomes de pai e mãe tradicionais em São Paulo.  Inteligente, bem articulada, ela discorre sobre suas emoções sem constrangimento algum. Música, para ela, é uma catarse, uma válvula de escape. Mas nem sempre quis ser cantora. Ex-aluna de trapézio em acampamentos juvenis que frequentava, já pensou em viajar com circos mundo afora ou então ser veterinária.

Ao conversar com Mallu, prepare-se para encontrar uma garota emocionalmente bem resolvida, que sabe muito bem o que sente e o que quer. Suas respostas são poéticas, assim como as canções que começou a compor aos 11 anos, dois anos depois de ganhar seu primeiro violão. Em entrevista exclusiva a CONTIGO!, ela fala sobre angústias, alegrias e tristezas, liberdade, pais, filhos, moda, Marcelo Camelo... e até música! Confira:

As duas semanas de moda mais importantes do Brasil, Fashion Rio e SPFW, terminaram recentemente, mobilizando os fashionistas. Você segue moda?
Vejo a moda como uma extensão da minha expressão artística. Vou às ruas vestida com a minha arte. Sabe que costuro à mão? Adoro costurar. E sou a favor da reutilização de tecidos - há alguns que eu mesma costuro, dobro e coloco no corpo de diversas maneiras, criando roupas diferentes. Gosto também de vestir roupa ao contrário, de ponta cabeça, uma em cima da outra. Até para evitar consumir muito. Mas admito que gosto de comprar fitas, roupas e sapatos. Gosto de ficar bonita. Mas não sou de ir atrás da moda. Eu a uso para ser eu mesma. E meus cuidados de beleza são poucos. No máximo, coloco um sabonetinho no cabelo para não ficar oleoso... (risos). E não uso maquiagem, a não ser aquela teatral, de circo. 

Como se imagina daqui a 20 anos?
Quero estar cheia de filhos, no mínimo uns cinco... Adotados, paridos, não importa. Penso em filhos desde pequenininha. Apesar de ter só 16 anos, já fiz vários trabalhos comunitários, principalmente com crianças carentes. Cheguei a trabalhar em abrigos e também com auxílio a mendigos e a tribos indígenas. Só não consegui ainda trabalhar com os Doutores da Alegria (grupo especialmente treinado para entreter e alegrar crianças em hospitais), por ter menos de 18 anos.

Você compõe, canta, pinta, desenha, fotografa, toca vários instrumentos. De onde vem essa necessidade de se expressar artisticamente?
Sempre fui assim. Sempre tive dentro de mim várias angústias, vários desconsertos em relação à minha leitura de mundo, vários questionamentos: desde a existência da desigualdade social até como as pessoas lidam com o amor. E assim tento canalizar toda essa minha necessidade de expressão para a arte. Eu podia muito bem canalizá-la para o vandalismo, o insulto, o ódio ao próximo. Mas não é ódio que tenho dentro de mim. É uma angústia que coloco para fora em forma de música, de pintura, de fotos.

Acredita que as pessoas não estão lidando bem com o amor?
Há pessoas que não conseguem dar carinho, guardam o amor dentro de si e acabam transformando esse sentimento em ódio, já que não têm a capacidade de botar o carinho para fora. Há uma coisa que sou a favor: abraço todo mundo. E abraço forte. Sabe, é como se eu estivesse falando: ''Ei, você existe e eu também existo, veja como somos parecidos''. O abraço não custa nada e com ele você transforma o dia de uma pessoa. Meu coração é totalmente aberto, sou completamente corrente do bem. Mas, às vezes, sou atingida de um jeito meio feio...

Como assim?
Bom, muitas vezes chega alguém e me critica de um jeito cruel. Eu, como qualquer pessoa, fico triste. Não posso dizer que sou intocável, porque não sou. Claro, há opiniões que valorizo. Se meu pai (Eduardo) ou minha mãe (Maria Eugênia) falarem que estou sendo estúpida, por exemplo, ou que estou perdendo o carinho que tenho dentro de mim, imediatamente revejo minhas atitudes. Vou passar dias em crise, mas vou pensar sobre isso. Em relação à música, quando faço uma canção e meu pai diz que não gostou, nunca mais toco. Deposito nas pessoas que amo toda a confiança, preciso da aprovação delas. Quem me rodeia tem uma responsabilidade muito grande... (risos)

A relação com seus pais é bem estreita...
Eles são incríveis. Eles realmente estão dedicando a vida deles a mim e a minha irmã, Ana, que tem 18 anos. Por meio da minha carreira, da minha paixão pessoal, percebi o que é gostar de alguém a ponto de você ter medo de que essa pessoa vá para a rua. O ''me liga quando você chegar'' é normal. Meus pais falam isso não porque não confiam em mim, mas por amor. Demorei um pouco para entender e hoje tento passar o que aprendi para outras pessoas. De vez em quando a gente lê ódio, lê proibição, lê atitude autoritária quando, na verdade, existe amor. É preciso enxergar o amor no mundo. Isso é necessário para que o ser humano melhore...

Você já tem uma carreira independente e viaja por todo o Brasil. Como lida com a sua liberdade pessoal?
A gente tem de ter conhecimento das coisas. Você pode até querer ter a experiência de ficar embaixo d’água sem respirar, mas quanto vai ter de fôlego? Precisamos ter conhecimento de até que ponto aguentamos as consequências. Outra coisa que acho que falta é o respeito pelo corpo. Precisamos ter conhecimento da troca, da causa e do efeito. Se você quer beber, por exemplo, precisa saber que vai ter problemas depois, que isso vai fazer mal para o fígado, que estraga o corpo. Às pessoas não têm muito essa consciência de troca.

E se considera bem-humorada?
Poxa, nós estamos vivendo, temos mais é que sermos felizes. Mas, claro, não sou bem-humorada o tempo todo. Minha felicidade, minha tristeza e minhas angústias são muito divididas. Quando eu tinha 11, 12, 13 anos, tive momentos bem ruins. Eu estava triste. Mas ao mesmo tempo estava feliz com a minha tristeza. Sempre respeitei muito meu estado de espírito. Se eu estiver triste, vou entender que esse é um momento de melhora. É por meio da tristeza, do que a motivou, que vou encontrar um descanso. Porque felicidade o tempo todo cansa também. Você precisa de um pique grande para ser feliz. É muita adrenalina. Às vezes, temos de dar um descanso para a alegria. Tenho vocação para ser feliz, mas é preciso que eu respeite minha tristeza para dar vazão à minha felicidade.

Quem faz você feliz?
Eu me apoio muito na minha família, nos meus amigos, na minha vida pessoal. Meu coração descansa no colo das pessoas. Eu sou assim. Vivo completamente grudada nos outros. Mas já tive épocas em que estive mais sozinha. E gostava da solidão também. Já passei por várias fases e concluo que gosto mesmo é de tranquilidade, de alegria, de paz. Mas acho que as pessoas precisam respeitar suas angústias.

Então acredita que chorar faz bem?
É ótimo! As pessoas falam: ''Ai, não chora, não''. Eu acho que tem de chorar. Choro pra caramba. Perco prêmio, choro. Perco a carteira, choro. Às vezes fico triste, com saudade e vou por aí derramando um chorinho. É como se eu fosse me resolvendo dentro do meu coração. E nessas até o nariz escorre... A gente respira e o mundo vive tentando nos entupir. Damos aquela respirada e entra tudo! Então, quando você chora, limpa tudo também. Chorar é bom, principalmente quando tem colo por perto... 

Por falar em colo, você e seu namorado, Marcelo Camelo, estão sempre na estrada. Como lida com a saudade?
Lido bem, lido de um jeito bonito. Tenho muita saudade dele, porque ele viaja muito e eu também. O que torna o amor até mais intenso. Mas fico triste muitas vezes... É ruim viajar, ficar no hotel sozinha... Nossa, eu gasto uma nota de telefone. Em turnê você fica trancada no quarto. Não pode sair porque é perigoso. Do quarto vai direto passar o som no palco. À noite também não pode sair com os músicos porque eles fazem programas de meninos mais velhos. Aí, só sobram TV, salgadinho, comida no quarto e PSP (PlayStation Portable).

O que traz de bom um relacionamento com uma pessoa bem mais velha?
Com certeza me traz muitas coisas legais, me ensina inclusive a ter parâmetros... Tenho também contato com outros músicos, o Zeca Baleiro, de quem gosto muito. Nesses contatos com pessoas mais experientes, vejo como lidam com a carreira, como se portam diante de determinadas situações. Aí posso também saber o que posso exigir de mim, dos meus músicos. Aprendo muito com todos, assim como aprendo com os arquitetos e os mecânicos.

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