Lilia Cabral

''Se homem levantar a mão pra mim, voa!''

Espontânea e sem um pingo de tristeza ou repressão, atriz diz que passa longe de sua sofrida personagem, Catarina, em A Favorita

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Por Renata Telles

 

O shih tzu Gucci, 3 anos, segue Lilia Cabral, 51, por toda parte. ''Vem com a mamãe!'', ela pede e ele obedece. Amoroso, o cachorrinho cuida bem da dona e é obediente... bem, mais ou menos. Faz um ou outro xixi onde não deve, mas ela deixa. E dá gargalhadas, já que esse é o único macho em sua casa que pode abusar. A atriz não perde o bom humor nunca e é o oposto de sua tão falada personagem em A Favorita, a sofrida Catarina. Não há um leve toque de repressão, de tristeza, de falta de vontade em Lilia. Sobre as pesadas cenas da personagem, ela diz encarar inicialmente com preguiça, mas ressalta que termina todas com muita energia. E como está a relação com Jackson Antunes, 48, seu par e algoz na novela? ''Ele até me convidou para conhecer seu sítio em Guapimirim (região serrana do Rio de Janeiro), mas ainda não tivemos tempo'', explica, colocando o marido, o economista Iwan Figueiredo, 58, junto ao convite. Casada há 13 anos e mãe de Giulia, 11, Lilia, que completa 30 anos de carreira, nos conta tudo sobre a real mulher por trás de Catarina. Ela não gosta de homem grosseiro, óbvio, mas também não se interessa pelos muito meloso. E vai logo avisando: ''Não nasci pra ficar na frente de fogão!''

Ao contrário do drama de Catarina, você tem um casamento feliz. Existe fórmula?
Não. Mas, há coisas que são imprescindíveis, como o respeito, a confiança, a necessidade de a gente saber ceder e a honestidade nos sentimentos do casal. Isso você aprende com a idade. Não vivemos com cobrança, o respeito vem em primeiro lugar. E rotina não existe em nosso casamento, sou atriz (risos)! Todo dia há algo diferente. Quando não gravo, vamos ao cinema, jantamos fora. Temos o nosso momento. A gente fala para a Giulia: ''Filha, hoje vamos namorar!'' E ela entende numa boa. Acho bonito aqueles casais velhinhos, como foram Jorge Amado e Zélia Gattai.

Seu marido é um homem romântico?
Não é muito. Às vezes, dou um toque: ''Não vai me dar uma florzinha, não (risos)?'' Aí, ele me dá. Mas também não é nem um pouco grosseiro. Homem muito meloso também não dá. Quando começa com muita história, já desconfio. Ou, então, quando mostra que gosta demais, eu não curto. Iwan me dá outras coisas, leva meu carro para a revisão, faz compras do supermercado, coisas chatas que mulher não gosta de fazer (risos)! Ele é ciumento e não demonstra. Eu sou e demonstro (risos)! Tudo na medida certa, porque a pessoa ciumenta destrói a vida do companheiro e não o deixa crescer.

Acha que vale tudo para salvar um casamento?
Sim, até você perceber que o respeito acabou. O pecado é achar que tudo vai melhorar. Não, não vai! Se há algo lhe incomodando, você vai sentar e tentar encontrar um denominador comum com seu parceiro. A mulher precisa se dar valor, quando ela mostra que é independente agrada no primeiro momento. Catarina é uma boa pessoa e, mesmo assim, é xingada, maltratada e humilhada como mulher. Na cabeça dela, se abre mão do marido, abre também da família, da casa, da instituição - só dos filhos que não. Então, abrir mão é se sentir um fracasso como mulher, por isso ela volta para o marido.

E você, na vida real, é ''mulherzinha'', faz comida para o seu marido?
Eu não faço nada na cozinha. Não sei e não gosto. É mais fácil convidar meu marido para jantar e dizer: ''Hoje vou pagar a conta''. Nunca quis aprender nada, não nasci para ficar na frente do fogão. Mal sei fritar um ovo.

Catarina apanha do marido. Já se relacionou com alguém violento? O que faria numa situação dessa?
Nunca me relacionei com alguém violento, mas já tive homens que faltaram com respeito, no sentido de traição. Quando sinto que a coisa não anda bem, termino logo. Penso: ''Será que vou agüentar ficar assim tanto tempo?'' Coloco na minha cabeça: ''De hoje, não passa!'' Isso para qualquer situação: traição de marido, de amiga... Eu dou um basta tão radical que não tenho arrependimento algum, corto relações. Posso continuar sofrendo por um mês, dois, mas eu termino. Se algum homem levantar a mão pra mim, voa! Eu posso morrer, mas isso não admito.

Como conseguiu construir a personagem? Já ouviu alguma história parecida?
Peguei muita coisa em programas de TV que falam de problemas familiares, daqueles que você não acredita que existam. Também passei a observar o sentido da palavra humilhação nas ruas. Em casa, minha mãe (Almedina Cabral) foi submissa como a Catarina. Tudo o que deva errado, meu pai achava que era culpa dela. Ela sempre ficava quieta nas brigas e eu a defendia. Tentava conversar com ela, mas era em vão. Os dois ficaram juntos até o fim. Minha mãe morreu em 1988 e acho que meu pai (Bertolli Gino) mudou a partir daí. Antes de ele morrer (em 1995), ele teve de amputar a perna por causa do diabetes. Chorando, ele me disse que não poderia mais pescar e caçar. Aí, eu percebi que, se tivesse entendido a postura dele quando criança, teria tido um relacionamento mais feliz. Meu pai não tinha um lado mau que nem o Léo (personagem de Jackson Antunes), ele me deu aquilo que pôde. Quem não apanhava de cinto antigamente? O que ele fazia não era maldade, era bronquice. Isso não significava que ele não tinha amor por mim ou pela minha mãe.

Como tem dividido o tempo entre o marido, a filha, a casa e o trabalho?
Não fico atolada, sempre dou um jeito de resolver as coisas. Em compensação, nunca mais tive um fim de semana em Itaipava (região serrana do Rio) por causa das gravações que tenho toda sexta e todo sábado. Viajar também não viajo. A última vez foi com Giulia, em janeiro, quando ainda não tinha começado a novela. Confesso que fico mixuruca vendo o pai viajar com ela.

Você foi mãe aos 40. Arrepende-se de ter demorado tanto?
Nem um pouco. Talvez, se tivesse sido mais nova, não tivesse tanta paciência. Filho é uma plástica interna, tudo muda. Você fica boba, agindo feito criança, fazendo as brincadeiras mais absurdas. Volta a compreender a inocência da vida e aí não se veste tão sóbria. Se bem que não tenho postura de velha, apesar dos 51 anos. E também não tenho postura de cocotinha, de menininha. O que tenho é uma alegria interior mesmo. Não penso que daqui a 20 anos terei 70.

Falando em idade, o que mudou depois dos 50 anos?
Hoje, eu sei aproveitar a vida muito melhor do que aproveitava aos 30. Não só por uma questão financeira. Afinal, você pode ter todo o dinheiro do mundo e ser infeliz. Agora, eu consigo enxergar as dificuldades que a vida apresenta e também resolvo com mais tranqüilidade do que antes. Isso é bem-estar! Não tive crise alguma! Giulia vai fazer 12 anos, tenho um casamento de 13 anos, tudo ainda novo para mim. Passei pelos 50 sem sentir!

Sente-se mais sexy agora?
Nunca tive essa postura porque ser sexy é um personagem para mim. Não tenho essa necessidade de me transformar que muitas pessoas têm. Eu fiz o filme Divã e ali eu tinha que ser realmente sexy. Quando me vi no monitor, nem acreditei. Não me enxergava! Pensei: ''Nossa, estou interessante (risos)!'' Acredito que a sensualidade brota da alma, é o jeito de falar, de olhar. Eu nunca, até com o corpo mais privilegiado aos 40 ou aos 30, tive esse perfil sensual e admiro muito as pessoas que tenham isso. Na questão da beleza, não adianta dizer que a gente é mais bonita aos 50! É ruim, hein (risos)!

E o relacionamento fica melhor nesta fase? Acredita que tenha alcançado maturidade sexual?
Não sei se amadureci no sexo. Quando existe amor, o sexo está sempre presente. Isso alimenta você. Mas não acho que exista sexo maduro. O sexo pode ser animal, louco... tem fases. Não tem essa de quantidade ou qualidade, vale tudo. Ele não pode ser dispensado, não posso dizer: ''Vou abrir mão''. Faz parte da vida da gente.

Gosta de se arrumar para ele?
Sim. Sempre saio direitinha! Quero estar bem. É nosso cartão de visita. Eu coloco a roupa, pergunto se ele gosta, ele diz que está bom e então tá (risos). Ele nunca reclamou de nenhuma roupa minha, mas também nunca apareci toda vestida de oncinha (risos). Gosto de usar lingeries comportadas e detesto vestir algo furado. Já usei tanga, mas não me vejo dentro dessa sensualidade colocando uma calcinha enfiada!

É vaidosa? Como cuida do corpo?
Queria ser mais vaidosa no sentido de fazer mais ginástica. Eu não gosto. Peso 63 quilos e tenho 1,74 metro de altura. Queria perder 1 quilo, mas é difícil! Procuro manter uma alimentação saudável, mas, às vezes, não resisto a um hambúrguer com batata frita. Não tenho sentimento de culpa! Por mim, comia pizza todos os dias. Confesso que gostaria de ter um corpinho mais enxuto e cuido na medida do possível. Nunca usei drogas, não bebo e não fumo. Também não sou adepta a dezenas de cremes para manter a pele linda. Na hora de dormir, uso uma fórmula que meu dermatologista passou. Não tenho vontade de fazer intervenção cirúrgica, vou ficar do jeitinho que sou. Gostaria de ser como a Meryl Streep, ela está linda depois dos 60. Quero que as pessoas vejam minha evolução.

O autor João Emanuel Carneiro já disse que existe a possibilidade de sua personagem, Catarina, se envolver com Stela, personagem da Paula Burlamaqui. Já passou por uma situação assim na vida?
Nunca tive contato com mulheres. Já tive, sim, algumas amigas que confundiram a minha amizade, mas nunca precisei falar nada. Com uma delas, minha própria atitude a fez entender. É chato quando você tem uma postura preconceituosa. Nunca precisei terminar com amizade, acabamos perdendo contato. A vida nos separou. Mas isso existe! 

Depois do sucesso no teatro, em março do ano que vem, você estréia no filme Divã, em que faz uma mulher moderna que descobre sentimentos reprimidos ao procurar um analista, aos 40 anos. Terapia ajuda?

Sim, e eu faço terapia desde que minha mãe faleceu. Na época, tive crise do pânico. Mas que atriz hoje não teve? A terapia me ajudou a ter paciência, me ajudou até na hora do filme (risos). Mas é bom saber que existem coisas que não mudamos na gente jamais. Você nasceu assim e vai até o fim com isso.

(Qui, 26/11/2009 - 17:10)
Rodrigo Lombardi na Disney


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